Escrever Ficção

Comecei um estudo do livro Escrever ficção: um manual de criação literária, de Luiz Antonio de Assis Brasil, publicado pela Cia das Letras. Gostaria de produzir vídeos desses estudos, mas me falta carisma para falar com as câmeras e habilidades para criar o roteiro, filmar, editar e manter o canal do Youtube com conteúdos frequentes. Quem sabe no futuro, se existir futuro e se o Youtube for relevante até lá.

Recorro então à velha amiga escrita. É assim que sempre estudamos e é assim que melhor me expresso. Escrevendo.

O autor já começa o livro causando desconforto quando relembra o diálogo com uma amiga que diz que entre os escritores há muita competição, afinal todo mundo escreve!

Cara, isso fere o ego bem no calcanhar. Eu não me preocupo em ser uma escritora especial. Mas eu sonho e acredito que meus livros serão considerados especiais pelos leitores. Compreender que — e Assis Brasil deixa isso bem claro em seu livro — o talento em si não significa nada, faz o escritor cair na real. Tolkien, embora gênio, era também um homem com fortes experiências de vida, tinha uma família, levava a sério os estudos, tinha vasta leitura desde pequeno, ensinado pela mãe. Os clássicos da literatura não são frutos apenas de talento.

É da experiência do escritor que surgem os personagens e suas histórias e uma dica valiosa que Assis Brasil nos traz na obra é que escrevamos sobre aquilo que sabemos, que temos afinidade, para que a história convença o leitor. Tudo bem, o escritor pode pesquisar para criar ficção. Mas essa pesquisa não pode aparecer na história como algo didático estilo Discovery Channel. A leitura deve fluir, como um avião em um excelente voo de céu calmo.

O ficcionista deve saber juntar suas leituras, experiências, observações para “criar histórias e, ao mesmo tempo, saber como transformar história em literatura” (ASSIS BRASIL, L. A. Cia das Letras: 2019, p. 15).

É aí que discordo da amiga do autor que citei no início do texto. Escrever, toda pessoa alfabetizada pode. Mas escrever literatura exige, muito mais que talento, trabalho e dedicação. Exige leitura, especialmente de clássicos. O autor cita a constatação de Freud, que ao ler Schnitzler, teve a impressão de que o escritor sabia, através de seus personagens, coisas sobre a existência que Freud constatava em pesquisas com seus pacientes.

Quando li Madame Bovarry, tive ódio daquela mulher. Por quê? Porque me vi nela, insatisfeita, inquieta, ansiosa, a pobre mulher queria conhecer o mundo e não soube lidar com a monotonia que sua vida se tornou. Dorian Grey seria um bom amigo para Madame Bovary. Ele viveu tudo o que ela desejava, e mesmo assim morreu infeliz, de maneira tão trágica como ela. Antes disso, o rei Salomão já dizia em Eclesiastes que tudo é vaidade e correr atrás do vento.

Viajei né? Voltando para o livro Escrever Ficção, esse post aqui é apenas sobre o capítulo 1 (mais introdução, epígrafe, etc.). O autor apresenta alguns conceitos que não vou entrar em detalhes aqui, mas que sempre me deixavam na dúvida, como por exemplo as diferenças entre novela e romance, narrativa e história, inspiração e conhecimento.

E fecha com chave de ouro com essa frase: “Não há grande artista que não seja, ao mesmo tempo, um grande mestre na técnica da sua arte”. A arte moderna e pós-moderna e seja lá aonde isso vai parar, quer nos convencer de que tudo é arte, de que a técnica não é importante, nem o ethus, nem a estética. Bom, deixo essa discussão para quem entende. Em minha leiga opinião, Rembrandt supera Mirò em tudo.

Nosso papo aqui não é sobre pintura eu sei, é sobre escrever ficção. Bom, se queremos mesmo ser escritores e escrever algo que preste, é preciso viver, observar, imaginar e, acima de tudo, desenvolver técnicas de escrita.

Em breve, outro post sobre as próximas considerações do livro. Vale a pena comprá-lo. Embora espesso, a leitura flui bem, não é cansativa.

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