Tully e a realidade sem filtro

No filme “Tully” vemos mais uma vez a atriz Chalize Theron dar show de interpretação. É uma atriz versátil e sempre atua muito bem. Neste drama, Theron vive Marlo, mulher casada, mãe de três filhos, sendo um deles recém-nascido. Além disso, o filho do meio apresenta um tipo de autismo, o que faz com que a escola que ele estuda o convide a se retirar, já que ele precisa de atenção especial e o colégio não está capacitado para trabalhar com crianças assim. Em uma das falas da personagem, ficamos sabendo que ela trabalha fora, então deduzimos que ela está de licença maternidade e por isso passa literalmente 24 horas por dia por conta da casa e das crianças. O marido dela também trabalha fora, às vezes viajando, e ajuda muito pouco nas tarefas domésticas e na criação dos filhos.

As críticas disseram que este é um filme realista, focado não nas maravilhas da maternidade, mas na parte difícil que é acordar de madrugada para amamentar, lidar com as necessidades especiais dos filhos sem ter apoio de ninguém, ensinar o para-casa, limpar, cozinhar, levar e buscar na escola, lidar com pirraças e choros excessivos, nas mudanças que o corpo feminino sofre a cada gestação, e no esgotamento físico e mental da mãe. Se analisarmos por esse ângulo, sim, é um filme realista. Mas eu parei para pensar em todos os filmes sobre maternidade que já assisti e não me lembrei de nenhum que floreasse a realidade, que a maquiasse. Todos eles, de um jeito mais dramático ou cômico, em minha humilde opinião, mostram um pouco da realidade de ser mãe.

O diferencial desse filme talvez seja o estado de saúde de Marlo. Sua exaustão está escancarada na expressão de seu rosto, em sua aparência desleixada, no tom de sua voz, nos suspiros que parecem gritos abafados de socorro. Seu marido? Bem, ele não é um péssimo homem. Tem um temperamento tranquilo, trabalha fora o dia todo para sustentar a família, ajuda em algumas pequenas tarefas domésticas. Mas só. Ele não parece esgotado, nem deprimido. Demonstra entusiasmo para progredir na carreira, joga videogame quase todas as noites, chega em casa esperando por um jantar gostoso e se decepciona quando vê uma pizza em cima da mesa. Seu papel na família é coadjuvante.

Quem consegue perceber que Marlo precisa com urgência de ajuda é o irmão dela, que é rico e oferece pagar uma babá noturna para ela. A princípio Marlo nega, pois acha um absurdo terceirizar os cuidados com as crianças a uma desconhecida. Mas após uma crise nervosa, decide ligar para a babá. O nome dela é Tully. É aí que o filme começa.

Tully é uma jovem bonita, curvilínea, inteligente, bilíngue, vivendo experiências amorosas inusitadas. Na primeira noite, assume os cuidados do bebê e conquista a confiança de Marlo. Ela diz o que talvez quase toda mãe gostaria de ouvir pelo menos uma vez na vida: “Marlo, não estou aqui para cuidar só do seu bebê, estou aqui para cuidar de você também”. E assim Marlo dorme bem à noite depois de muito tempo. Durante a madrugada, Tully leva o bebê até o quarto para amamentar e depois se retira com ele de novo para a mãe voltar a dormir. Daí para frente as duas se tornam amigas, Tully ajuda em outras coisas a mais com a casa, as crianças e até incentiva Marlo a voltar a retomar a vida sexual com o marido.

O final é surpreendente. Daqueles que você fica pensativo uma semana.

Como qualquer cultura que consumimos, é importante colocar nossos óculos da racionalidade para filtrar o que é bom do que é ruim. É sempre válido conhecermos um pouco da biografia dos autores da arte que vemos, sejam eles diretores, escritores, roteiristas, pintores, etc. A biografia diz muito sobre a visão de mundo da pessoa e isso está sempre impresso de maneira direta ou indireta nas obras dos artistas. A roteirista desse filme é a mesma de “Juno”, outro filme sobre maternidade, abordando o tema sob  ângulo distinto. Confesso que achei “Juno” um pouco frio e materialista, embora tenha ganhado Oscar de melhor roteiro em 2008. Em “Tully” isso também aparece, só que em menor grau. O que falta mesmo nos dois filmes é aquilo que é mais importante em nossa vida: o amor. As poucas vezes que o amor aparece em “Tully”, são as cenas mais bonitas.

Assim como algumas mães podem se identificar com Marlo, outras podem ter vivido experiências completamente diferentes. De todo modo, é um filme do qual podemos retirar muitas lições. As mulheres se dedicam tanto a cuidar da família e muitas vezes deixam de cuidar de si mesmas. Isso afeta não só a aparência, que convenhamos, com um bebê recém-nascido, é o de menos. Afeta principalmente a saúde física e mental. A depressão, seja ela pós-parto ou qualquer outro tipo, é algo sério e não deve ser ignorado ou subestimado. Algumas mães se sentem culpadas o tempo todo, sempre achando que estão cometendo erros ou não fazendo o seu melhor. Eu poderia destacar aqui muitos pontos de reflexão a partir do filme. Contudo, o que mais me chamou a atenção, é que o filme não é só sobre maternidade. É sobre paternidade também. Com a chegada da babá, as coisas ficaram bem mais fáceis na rotina de Marlo e ela deixou de se sentir tão sobrecarregada. Infelizmente, nem todo mundo tem condições financeiras para contratar uma babá. E mais infelizmente ainda, por incontáveis motivos, nem toda criança tem um pai. Mas se há uma realidade que o filme mostra é que nós não somos nenhuma Mulher Maravilha. No filme há um diálogo marcante: A jovem Tully afirma que “as garotas se curam” e a madura Marlo refuta “não. Se você olhar de perto, estamos cobertas de corretivo”.

Devemos aprender a reconhecer nossos limites e a não ter vergonha de admitir que precisamos de ajuda. Por mais que a sociedade imponha às mães que elas precisam dar conta de tudo, mesmo com jornadas duplas ou triplas de trabalho, é necessário delegar aos pais responsabilidades. Quando duas pessoas dividem o trabalho, o fardo fica menos pesado. Dois são mais fortes que um.

A todas as mamães que leem esse texto, parabéns pela sua força. Nunca se esqueçam que o amor pelos seus filhos envolve também amar a si mesmas, cuidar de si mesmas, ter um tempinho só para você. Os filhos crescem, seguem a vida e você precisa estar inteira para continuar se gostando quando não precisar mais dedicar-se 24 horas à maternidade.

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