Soberba Espiritual

Há mais de uma década eu me converti ao cristianismo protestante e de lá para cá passei por diversas fases que me fizeram amadurecer e a aprender a caminhar melhor nessa estrada que se chama vida. No início da minha conversão, quando eu tinha entre 17 e 18 anos, frequentei um grupo pequeno, sem denominação, que me ajudou a responder as primeiras perguntas sobre quem era Cristo e o que a morte dele na cruz significava. Mergulhei de cabeça na fé cristã, passei a orar mais e ler a Bíblia. Algum tempo depois, comecei a frequentar uma igreja pentecostal e foi nessa época em que decidi romper totalmente com o meu velho eu: me desfiz dos discos e de um punhado de camisas e cartazes de banda, parei de frequentar os lugares usuais e a andar com os colegas de balada. Me proibi de falar palavrões e de usar toda aquela parafernália entorpecedora. Enfim, me tornei uma Crente com letra maiúscula.

Passados alguns anos, as pancadas da vida começaram a me abater. Nunca vivi em um mar de rosas, mas na minha cabeça tudo sempre acabava bem. #SóQueNÃo. Essas pancadas começaram a roubar minha alegria e levar embora aquelas ilusões adolescentes que ora nos fazem acreditar que somos o máximo, ora nos fazem acreditar que somos o cocô do cavalo do bandido.

A vontade de fazer um curso de teologia já rondava minha mente, mas eu não tinha tempo nem dinheiro para isso. Essa vontade cresceu com o passar dos anos e finalmente e decidi encontrar o curso que se encaixasse naquilo que eu estava buscando.

Fiz um ano do curso Teologia e Vida Cristã do L’Abri Brasil e amei. Muito mesmo. Vocês encontram mais sobre eles na internet. Acredito que existam outros bons também, e honestos, mas o L’Abri realmente é o meu xodó. Enfim, aprendi muito, li diversos livros, conheci autores novos e conceitos novos também. Muita bobagem mística que eu acreditava que era cristianismo caiu por terra. Me libertei das amarras legalistas e compreendi que a conversão é algo muito mais profundo do que siplesmente mudar os costumes. É preciso que a cosmovisão mude, o coração mesmo. É uma transformação completa e contínua de caráter.

Posso falar mais sobre isso em outro post se quiserem, vou me ater ao título do texto. Descobri que existe um grande problema em estudar muito e ter uma vida intelectual ativa. É que corremos o risto de cairmos no que chamamos de soberba intelectual. No caso da teologia, chamo de soberba espiritual. À medida que vamos adquirindo conhecimento (que não é a mesma coisa de sabedoria), começamos a desprezar conteúdos mais simples. Achamos tudo muito raso: as pregações da igreja que frequentamos, os livros estilo autoajuda de autores cristãos (até mesmo os renomados), as conversas dos irmãos da igreja, filmes e músicas de cunho religioso e toda a gama de coisas que vêm com o selo “gospel”.

É importante sim ter discernimento para selecionar o joio do trigo, ou seja, as coisas que realmente são rasas e hereges daquelas que nos ajudam a quebrandar o coração e compreender a verdade cristã. Mas nem tudo que é raso, é herege. E nem tudo que é herege, é raso. Dou um exemplo para tentar ser mais clara:

Um dos pastores da minha igreja me deu um livro para que, baseando-me nele, eu monte algumas lições para serem estudadas pelas células (pequenos grupos cristãos que se reúnem nas casas). Eu aceitei a tarefa de bom grado, mas a princípio tive uma rejeição pelo livro. A capa, o título, a linguagem. Julguei como sendo raso, bobo, panfletário e simplório. Mas missão dada – e aceita -, é missão cumprida. Então respirei fundo e recomecei a ler o livro com mais calma, anotando as partes importantes para no fim montar os textos das lições. Fui surpreendida. Encontrei ali naquelas primeiras páginas muitos ensinamentos. Detalhes sutis que se eu conseguir aplicar à minha vida, com certeza me ajudarão a estreitar a intimidade com Deus e a desenvolver meu caráter.

Fiquei pensando em quanta coisa boa eu deixei de aprender nos cultos da igreja porque eu me achei boa demais para aquilo. Não sou uma doutora em teologia, mas sei muito mais do que a média e isso me fez acreditar que o alimento espiritual que estavam me oferecendo era insípido e sem muitos nutrientes. Eu queria doses cavalares de tologia reformada. Queria sair moída do culto, com o coração totalmente quebrantado e a cara no pó. De fato, é raro acontecer isso. O que acabou se tornou um desestímulo para mim. Mas, assim como aconteceu com este livro que estou lendo para montar as lições, com certeza algumas das pregações que julguei ruins, se eu tivesse me esforçado e prestado atenção, teria aprendido alguma coisa. Basta uma palavra, uma frase, algo que funcione como uma flecha, para estourar os balões inflados do meu ego.

Eu me dei conta da minha soberba espiritual. E me lembrei de que uma das coisas mais importantes para se viver uma vida com Cristo é a humildade. O livro que estou lendo me mostrou que preciso ser mais humilde. A biblioteca do meu cérebro nunca estará completa. Sempre haverá espaço para mais aprendizado. É possível extrair verdade de uma revistinha em quadrinhos e de um livro do C. S. Lewis, da pregação de um teólogo sensacional e de um pastor da igreja local.

A soberba nos venda os olhos para as coisas simples. E muitas vezes, as coisas simples são as mais profundas.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s