Ser cristão é impossível? – Parte 2 –

Como eu ia dizendo no texto anterior, 2008 foi o ano que marcou minha vida de muitas maneiras. Entrei no mestrado e viajei para Roraima. O objeto de estudo da minha dissertação era a Fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana.

Me casei com o amor da minha vida.

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Consegui um bom trabalho como professora. Muitas conquistas, muitos sonhos realizados, era como se eu caminhasse para o auge da minha vida.

Mas esse auge nunca chegou. O que eu recebi foi um terrível balde de água fria. Tão gelado que apagou parte daquele fogo que ardia no meu coração. Não vou entrar aqui em detalhes, pois já contei sobre isso em outros textos meus. De forma resumida, eu perdi um pedaço do meu coração e todas as dores do passado não se comparam a essa. Eu havia superado tudo até ali. Mas isso não. Isso sempre será insuperável. Me senti na pele de Jó, que era um homem justo e temente a Deus e que, num piscar de olhos, perdeu tudo. Por muito tempo esse foi um livro da Bíblia que detestei. Não conseguia compreender por que um homem como Jó fora submetido a tamanha injustiça. Demorei muitos anos para que esse livro se descortinasse diante dos meus olhos. Tem um texto aqui no blog no qual transcrevi o trecho de um filme de Terrence Malick que explica um pouco a moral do livro de Jó.

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“Escárnio contra Jó”. Pintura de Gioacchino Assereto. 1645-1650

Eu não perdi tudo como Jó. Minha saúde sempre foi formidável, minha condição financeira melhorou gradativamente, eu tenho amigos, uma família imensa e unida. Na verdade, eu perdi uma coisa só. Mas era uma das mais importantes. Insubstituível como uma joia do infinito. Sem essa joia, o universo nunca mais teve harmonia. Pelo menos não para mim.

Ainda assim, não abandonei a fé. Confesso que briguei feio com Deus e o questionei. Estava com raiva e decepcionada. Me sentia injustiçada por Ele. Loucura? Sim, eu sei. Mas era como eu me sentia. Todavia, eu não queria ser uma traidora e usar aquele momento de tristeza para me desviar do caminho da verdade. Eu ainda tinha sede da verdade, eu ainda amava a verdade, eu ainda precisava da verdade. Eu sabia que, como Jó, poderia sobreviver à perda de qualquer coisa, mesmo que fosse como um soldado que volta mutilado de uma guerra. Mas sem Cristo… Bem, sem Ele é impossível viver.  Como Salomão diz em Eclesiastes, sem Cristo tudo é perda de tempo.

Não superei, mas prossegui. O tempo cicatrizou a ferida (eu acho), mas ainda dói. A raiva passou. Meu amor pela Verdade venceu a mágoa. Não entendi o porquê de tudo aquilo, mas me conformei. Eu precisava de Deus. Como no salmo 23, nada me faltou… quer dizer, sim faltou. Faltou a joia do infinito. Faltou e sempre faltará. Mas Cristo supriu essa falta com o seu amor. Cristo foi o meu consolo, o meu abrigo, a minha força, a minha alegria, o meu amigo, o meu Pai, o meu Senhor, o meu Deus. Só através de Cristo o universo pode existir sem as nossas joias do infinito. Porque Ele é o Verbo, Ele é a Fonte da Vida Eterna, Ele é a Verdade. Tudo foi feito por Ele, para Ele e através Dele.

Enfim… sobrevivi. Continuei a caminhar. Eu tinha um desejo ardente de trabalhar para Deus, de fazer coisas para Ele, de dedicar meu tempo a servir em uma causa. Desde me converti eu já tinha sido voluntária em ministérios de dança, louvor, ensino, evangelismo, missões urbanas. Eu dizia “eis-me aqui, Senhor, usa-me”.

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Senti a necessidade de estudar mais a fundo Teologia e sabia que aquela era a hora certa. Há mais de uma década eu vivia na fé cristã, já estava amadurecida o bastante para ir mais a fundo. Pesquisei os tipos de cursos acessíveis para mim. Escolhi o que eu achava o melhor de todos. Curioso que quem me apresentou o L’Abri foi o mesmo amigo que me levou naquele estudo bíblico anos atrás, quando estávamos no Ensino Médio.

Fiz um curso de um ano e foi maravilhoso. Aprendi tanta coisa! Conheci autores sensacionais, professores excepcionais, fiz amizades queridas. Muita besteira que eu acreditava ser verdade caiu por terra. Aquele misticismo todo que permeava meu cristianismo se dissipou. Fiquei livre do legalismo (até certo ponto) e entendi melhor a trindade e o amor de Deus. O escritor C. S. Lewis é o meu, digamos, mentor. Os livros dele me espancam, me moem por dentro, me ajudam a perceber minha pequenez e minha dependência de Deus.

Terminei o curso e nunca mais deixei de estudar Teologia. Posso dissertar sobre muitos temas teológicos com segurança e fundamentos sólidos. Amo conversar e ensinar sobre o cristianismo. Amo!

Porém nada disso impediu que o vazio se tornasse um monstro.  Naquele jogo de “tá quente, tá frio” eu fiquei morna. Ah, meus amigos, isso é um problema grave. Muito grave. Em questões de fé, quem tá frio sente a necessidade do calor. Quem tá quente busca ainda mais pelo fogo. Mas o morno… o morno se torna indiferente. É um estado de espírito insosso e sem graça. E o pior, é um estado de espírito enganoso. Muitas vezes quando percebemos que estamos assim, é quase tarde demais.

Demorou algum tempo para eu perceber isso. Anos, na verdade. Eu já não tinha a agitação da juventude, nem a agenda cheia, muito menos a vida social frenética como antes. Havia me formado, então não estudava tanto quanto na época da faculdade. Alguns contratos de trabalho foram encerrados e eu já não trabalhava manhã, tarde e noite como outrora. Os tempos de ócio aumentaram. E cabeça vazia se torna uma oficina, não é mesmo?

Há uma grande diferença entre saber muita Teologia e estar próxima de Deus. Li muitos livros e me esqueci do mais importante. Aprendi com muitos mestres, mas me afastei do principal. Conversei com muita gente, mas negligenciei as conversas com a melhor pessoa do universo. Como naquela biografia do Kurt Cobain que eu li aos 17 anos. Sei muito o que as pessoas dizem sobre o Kurt, mas não o que ele diria sobre si mesmo. Amei muito o Kurt, mas a imagem que concebi na minha cabeça, não o Kurt de verdade. Sabia as músicas dele de cor, me identificava com a sua dor. Mas eu nunca vou saber o que ele realmente sentia. O Kurt está morto e eu jamais irei conhecê-lo. É apenas uma lembrança, um mito, um ser humano bonito que se foi.

Eu li muitos livros sobre Jesus, ouvi e decorei diversas músicas que falam sobre Ele, mantive inúmeras conversas sobre temas teológicos. Por um tempo, caminhei bem pertinho Dele, mas não sei exatamente em que ponto da estrada eu tomei a trilha errada e me perdi. Minha visão voltou a ficar turva, o caminho ficou confuso, os passarinhos comeram as migalhas que caíram no chão e demarcavam o caminho. Sim, eu sei teologia. Mas a teoria não serve de nada a um soldado quando ele precisa se embrenhar na mata e lutar. É a prática que o ajuda a se manter vivo. A prática e a misericórdia de Deus.

A boa notícia é que diferente do Kurt, Jesus não está morto. Eu posso ouvir o que Ele tem a dizer, eu posso conversar pessoalmente com Ele, eu posso conhecê-Lo de verdade. Não a ideia que tenho sobre Ele, mas o Cristo de verdade.

Fiz uma viagem recente à Inglaterra. Visitei igrejas anglicanas antiquíssimas, muito ortodoxas e sérias. Comecei a pensar que era aquela a forma correta de cultuar e buscar a Deus. As coisas de Deus são sérias, não podem ser confundidas com Tomorrowland como às vezes acontece em algumas igrejas no Brasil. Eu ainda pensava nisso quando me dirigia ao British Museum. Subi as escadas do metrô que davam acesso à Tottenham Court Road quando dei de cara com a Hillsong. Eu tive de entrar. O culto ia começar naquele instante. Foi inevitável. Eu tinha acabado de sair de um culto/missa anglicana e de repente me vi dentro de um teatro amplo, com um palco cheio de luzes e fumaça, uma banda gigantesca tocando um som de arrepiar. Emocionante. Fui às lágrimas. Chorei, bati palmas, cantei. Meu coração vibrava. Talvez eu não tenha sido incendiada pelo Espírito Santo. Talvez foi só a música mesmo e a atmosfera tomorrowland. Mas naquele instante eu entendi. Não é um lugar… É uma pessoa. Não é numa igreja… É no meu coração. Pode ser em Londres ou em Belo Horizonte, em uma igreja ortodoxa ou numa ultra power moderna. A diferença não está aí e sim no fato de eu abrir o meu coração e deixar Ele entrar. Se eu fizer isso, se eu permitir que Cristo me ame, se eu permitir que o Espírito Santo me guie, tudo o que é mentira e idolatria cai por terra. A verdade triunfa. O amor triunfa.

E o amor não é um sentimento. Deus é amor. Como diria o sensei C. S. Lewis, só o que é tocado por esse amor absoluto continuará existindo na eternidade. Todo o resto perecerá.

É difícil ser cristão? Não… Ser cristão é impossível. Com nossas próprias forças, confiando em nossa autossuficiência, jamais chegaremos  ao céu. Por isso Cristo desceu. Deus se fez homem e habitou entre nós. Por nós mesmos, nunca chegaríamos até Ele. Mas a boa nova é essa, que Ele veio ao nosso encontro. Deus amou o mundo de tal maneira que enviou o seu filho unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

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Fúlvio Pennacchi Pintor e muralista ítalo-brasileiro (1905-1992)

Ainda que eu perca todas as minhas joias do infinito, “O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus é o meu rochedo, em quem me refugio. Ele é o meu escudo e o poder que me salva, a minha torre alta. (…) Na minha aflição clamei ao Senhor; gritei por socorro ao meu Deus. Do seu templo ele ouviu a minha voz; meu grito chegou à sua presença, aos seus ouvidos”. – Salmo 18 –

Os espinhos na minha carne me maltratam, mas a tua graça, Senhor, me basta.

 

 

Um comentário em “Ser cristão é impossível? – Parte 2 –

  1. Uau…lindo e profundo demais tudo que voce externa em suas muitas experiencias…Deus para sempre será o centro de nossas vidas, somente com Ele somos capaz de prosseguir..Ainda que nos doa, realmente Ele nunca perde o controle. Obrigada pela doce e edificante partilha Ana.

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