Ser cristão é impossível? – Parte 1 –

Há quinze anos, quando eu ainda era uma adolescente de 17 , estava meio perdida e confusa. Com um coração partido dezenas de vezes, ainda me restavam sonhos e utopias. Meus pensamentos sobre mim se alternavam entre eu me achar a última bolacha do pacote e o cocô do cavalo do bandido (acho que ainda hoje é assim). De tudo isso, o que mais me caracterizava naquela época era que eu buscava a verdade. Sempre fui curiosa e inteligente, principalmente para assuntos abstratos tais como de onde vim, para onde vou, ser ou não ser eis a questão, penso e logo existo… Essas coisas. Eu gostava de Pink Floyd, tinha acabado de ler a biografia do Kurt Cobain (o que me abalou profundamente), e um dos meus filmes prediletos na época era “Agora e Sempre”. Os filmes que eu assistia, as músicas que ouvia, os livros que lia, não eram só entretenimento. Eu tentava encontrar a verdade através deles.

Sempre fui um pouco dramática e isso me ajudava a escrever. Nas últimas folhas dos cadernos eu derramava minhas dores, meus amores, meus delírios. Todavia, quase sempre eu tinha que estudar para provas durante a semana, frequentava festinhas e shows nas sextas e sábados, tinha muitos amigos, turma e agenda cheias. Isso fazia com que eu me sentisse viva e não me deixava muito tempo para pensar na morte da bezerra.

vazio

Acho que o vazio já existia em mim, mas estava camuflado pela agitação da juventude. Mal sabia eu que uma década depois ele se tornaria um monstro.

Foi nessa época dos 16 para os 17 anos que eu experimentei o gosto amargo da desilusão. Nunca me senti tão sozinha. Tive de atravessar um deserto muito árido de cabeça erguida, recolhendo os meus pedaços pelo chão, sem saber como ser inteira de novo. A busca pela verdade começou a arder mais forte em meu coração e eu iniciei uma jornada para encontrá-la. Li livros do Paulo Coelho e isso despertou minha curiosidade para o universo wicca. Ainda mais depois daquele filme “Jovens Bruxas”. Depois li um livro Hare Krishna que eu comprei na mão de um rapaz lá na Savassi (em Belo Horizonte). Esse rapaz me ensinou um mantra para eu ficar repetindo a fim de atrair felicidade. Frequentei por um tempo uma fraternidade kardecista e li partes do livro de Alan Kardec. Cheguei a ir algumas vezes receber passe. Também recebi passe num espaço Johrei. Pensei em conhecer o tal Santo Daime, mas nunca tive coragem.

Passei um carnaval louco em Ouro Preto, meu primeiro e último carnaval de verdade. Só que logo em seguida iniciei um voto de quaresma na igreja Católica. Fui quase 40 dias à missa, direto. Passei a fazer o sinal da cruz sempre que passava em frente a uma igreja católica.

Eu já estava no Ensino Médio, não me lembro se no primeiro ou segundo ano. Só sei que um colega de sala me convidou para uma reunião de estudo bíblico e eu fiquei apaixonada pela maneira como dissertavam sobre os evangelhos. Passei a fazer o sinal da cruz quando passava em frente a igrejas evangélicas também. Imagine eu, dentro do ônibus, fazendo sinal da cruz. Acho que fazia isso o tempo todo porque tem igreja demais na minha cidade.

Alguém de fora poderia ver aquela cena e achar graça. Mas, para mim, aquilo tinha um significado místico. Hoje posso concluir que eu estava passando por um processo de transição e aprendizado. O sinal da cruz representava muito mais do que me benzer. Era um tipo de reverência. Uma maneira que eu encontrava de declarar o meu respeito pelas coisas de Deus.

Comecei a ler a Bíblia em casa, a fazer orações. Sabe aquela brincadeira do “tá quente, tá frio?”. Então… Eu sentia que eu estava ficando quente, que eu estava me aproximando de encontrar a verdade que tanto buscava. Meu marido, que na época era meu namorado, conhecia um pouco da Palavra de Deus e conversávamos sobre isso. Também conversava sobre isso com o meu colega de sala e com a amiga dele, que me dava carona para o tal estudo. E foi numa carona dessas que ela me explicou quem era Jesus.

Eu achava que Ele era um cara inteligentíssimo, um espírito evoluído que cumpriu a missão de forma perfeita. Mas o que eu não sabia era que Ele era Deus. Não sabia o significado da cruz e muito menos da ressurreição. Não sabia bulufas sobre o Espírito Santo. E ela me explicou com tanta doçura quem era Jesus que eu cri naquela mesma hora. Tudo fez sentido. Eu estava fervendo. Foi como se minha visão embaçada se tornasse nítida. Eu sempre acreditei em Deus, mas agora estava O conhecendo de verdade. Estava conhecendo a Verdade.

E desde então fui prosseguindo nesse caminho, frequentando os estudos bíblicos, assistindo cultos pela televisão, me tornando membro de uma igreja pentecostal na qual eu permaneci por muito tempo.

Fui daquelas convertidas que quebram CD’s, jogam enfeites de gnomos e bruxinhas fora, param de acender incenso e de ouvir as músicas das bandas que outrora foram as preferidas. Bani Raul Seixas da minha vida. Doei o poster gigante do Kurt Cobain que tinha no meu quarto e a placa de madeira onde estava entalhado o nome “Planet Hemp”. Fiquei careta em todos os sentidos que essa palavra pode ter.

Isso não foi exatamente a mando da igreja que eu frequentava. Até porque a igreja era enorme e o povo mal sabia o meu nome. Quem dirá alguma coisa a respeito da minha vida. Fiz tudo isso porque acreditava que naquele momento era o certo a fazer. Eu precisava romper com meu velho “eu”, cortar pela raiz, não deixar nenhum resquício. Se eu fosse condescendente com alguma coisa, corria o risco de perder a batalha. Como naquelas revoluções em que os movimentos reacionários avacalham com tudo.

Na verdade eu não me ligo muito nessas coisas de denominação. Por exemplo, hoje eu frequento uma igreja metodista, porém faço apenas uma vaga ideia do que significa “metodista”. Já visitei muita igreja, muita mesmo: que canta, que não canta, que grita, que não grita, que bate palma, que não bate, que pula e que não pula, que pede dinheiro e que não pede…Eu buscava a verdade. E a verdade não é um lugar. A verdade é uma pessoa.

Essa Verdade foi o motivo de eu querer parar de mentir, querer parar de falar palavrão, querer parar de buscar a felicidade numa realidade distorcida, aprender a buscar a paz sem deixar de estar sóbria. Aos poucos, aprendi a me alegrar num estilo de vida mais pacato e saudável. Sem toda aquela parafernália que promete nos fazer voar mesmo não tendo asas.

Estaria mentindo se eu dissesse que foi difícil. Eu mergulhei de tal maneira no rio do Cristianismo que me molhei da cabeça aos pés, imergi completamente, sem me agarrar às margens por medo de me afogar.

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Meu coração foi partido mais um zilhão de vezes, por diferentes motivos, mas mesmo assim eu estava feliz. Eu tinha descoberto o caminho para a verdade e essa era a minha fonte de alegria.

Aí aconteceu o ano de 2008. Ah… 2008. Nunca poderia imaginar que minha vida seria marcada daquela maneira. Foi o balde de água fria mais absurdo que eu poderia ter recebido. E esse balde de água fria foi terrível o bastante para não só destruir boa parte dos meus sonhos, como para esfriar quase totalmente as brasas do meu coração.

(Continua…)

 

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