O Preço do Sucesso

Quando publiquei meu primeiro livro eu não tinha a pretensão de ser uma escritora consagrada, com diversos livros publicados e premiados, filmes baseados em meus livros e uma legião de fãs que me seguiriam em eventos e redes sociais. Em 2014, quando mandei rodar 50 exemplares da primeira edição de Um Ano Bom, eu simplesmente queria mostrar às pessoas algo muito belo e emocionante que eu havia criado. Desde então, o sonho foi crescendo e ganhando forma. Hoje posso dizer que tenho todas as pretensões listadas nas linhas acima, e outras ainda mais mirabolantes.

São sonhos difíceis de se realizar? Sim, e muito. Principalmente dado o contexto histórico, social e cultural que vivemos no Brasil e no mundo. Todavia, são sonhos possíveis que exigem o que quase toda profissão requer para se obter o sucesso: trabalho árduo, dedicação e disciplina. O único problema, pelo menos para mim, é que além do trabalho árduo, dedicação e disciplina (habilidades que eu tenho) eu também preciso enfrentar alguns monstrinhos dentro de mim como a ansiedade, a baixa auto-estima, a mania de comparação e os pensamentos negativos. Essa é a parte mais difícil para mim em todas as áreas da minha vida.

Este não é mais um post para falar dos meus lamentos e sim para incentivar quem passa por situações semelhantes à minha, em que é preciso perseverar quando a vontade é desistir, acreditar quando seria bem mais fácil abandonar.

Há alguns dias, vi uma notícia na internet de que uma atriz brasileira relativamente famosa foi cogitada para o elenco de uma novela. Porém, a condição para que ela fosse escalada era que tivesse muitos “K” no Instagram e, para isso, teria de comprar seguidores. Depois da decepção, a atriz em questão recusou o convite alegando que gostaria de ser contratada pelo seu talento e não pela sua fama nas redes sociais.

Isso me ajudou muito a refletir sobre minha profissão. Embora ela seja atriz e eu escritora, artes diferentes que dialogam entre si, o episódio me chamou à atenção pois já me peguei algumas vezes preocupada com o número de views e “K” nas redes sociais, como se minha carreira literária dependesse exclusivamente disso. Tenho pesquisado sobre como usar melhor as redes sociais como ferramentas de divulgação e até comecei a seguir vários artistas no Instagram e no Youtube para estudar o perfil deles e buscar inspirações. É errado isso que estou fazendo? Lógico que não, pelo contrário. Hoje em dia é bem difícil um escritor ser responsável apenas com a parte da escrita dos livros em si. Mesmo os que estão em grandes editoras, precisam aprender a vender sua imagem, seu trabalho, e gerar o desejo no público de ler os livros, consumir sua arte.

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O que me incomoda é a ansiedade que vem junto a tudo isso. Algumas pessoas passam o dia com o celular na mão, sem largá-lo nem para dormir. Checam as redes sociais a cada minuto para ver se há mais alguma curtida ou seguidor, sofre quando alguém deixa de seguir, etc. Perdemos tempo com essas coisas quando deveríamos estar escrevendo, lendo, pesquisando para criar as histórias, os poemas, os contos.  Acaba se tornando um vício. Sigo vários youtubers. Alguns tem 100 K, outros 500 k, alguns mais de 1M. E eles nunca estão satisfeitos. Estão sempre demonstrando a preocupação em ter mais e mais seguidores, como um saco sem fundo. E alguns se mostram frustrados quando esse número não cresce.

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Na Bienal do Livro de 2017, no Rio de Janeiro, eu estava sentada no cantinho do estande em que expus meus livros quando, de repente, entrou uma garota me procurando. Carolina é seu nome. Carol sorriu, me abraçou, já estava com um livro meu em mãos. Havia comprado alguns dias antes, mas não me encontrou no estande na ocasião. Por isso, voltou à Bienal para me ver. Ela mesma disse que havia ido mais uma vez naquela Bienal só para me ver, pois me seguia no Instagram e sabia que eu estaria lá. Queria me conhecer pessoalmente e pegar um autógrafo. Eu fiquei tão feliz, mas tão feliz! Foi algo extraordinário. Enquanto outros autores famosos possuíam filas de fãs para vê-los, lá estava 1 (uma) menina que havia ido me ver. Uma, uminha, e esta menina encheu meus olhos de brilho e meu coração de alegria. Ninguém tem mil, dois mil, cem mil, um milhão, sem ter começado com uma pessoa. E eu devo me dedicar a essa 1 da mesma forma como me dedicaria se tivesse 1 milhão. Porque no fim das contas, não é exatamente fama e grana que busco, mas leitores. Sem leitores meu trabalho perde a graça. Eu poderia voltar a escrever só para mim como sempre fiz, mas é difícil guardar algo bonito apenas para si. Quando fazemos algo bonito queremos compartilhar.

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Essas pequenas lições que tenho aprendido com a vida somaram-se hoje ao filme “Five Foot Two” da Netflix sobre a Lady Gaga. É um filme que todo artista que deseja o sucesso deveria assistir. O documentário mostra que mais difícil do que alcançar o sucesso é manter-se lá. Além disso, mesmo que se consigamos chegar ao topo, isso não quer dizer que seremos felizes.

Com certeza, a área profissional afeta a nossa saúde mental e emocional. É horrível sentir-se fracassado e incompleto. No entanto, quando vejo a Lady Gaga revelando seus medos, fraquezas, enfermidades e sua solidão, percebo que provavelmente, mesmo que algum dia eu alcance o topo, isso não será suficiente para preencher o vazio no meu coração.

Ser aplaudida hoje, não garante que serei aplaudida amanhã. Ser feliz hoje não quer dizer que serei feliz amanhã. O mundo é muito maior do que conhecemos e a vida é muito mais do que imaginamos. Presos à Matrix, nos alimentamos de ilusões. Tomando a pílula vermelha, talvez as coisas fiquem meio sem graça a princípio, contudo teremos a chance de conseguir algo valioso e que muita gente deseja: a liberdade.

Obrigada Lady Gaga, obrigada Carol. Sigo aprendendo a viver.

Um comentário em “O Preço do Sucesso

  1. Adorei a matéria e realmente, não importa se são 8 ou 80 leitores, nos dedicamos da mesma maneira. E isso antes mesmo do sucesso já te cobra muito, conheço gente que vira noites em claro para produzir um conteúdo legal, uma imagem para divulgar, capricha em cada minimo detalhe por amor a história e na espectativa de conseguir novos leitores. É um mercado meio estranho, que destrói muitos sonhos, infelizmente, mas se conseguirmos mediar isso, tudo fica mais leve e prazeroso. Adorei a matéria ❤

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