A decepção é uma coisa boa

C. S. Lewis é o meu escritor favorito ever e o livro dele “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz” é meu livro favorito no mundo. Eu sei, o título é cabuloso. E acreditem, o livro é mais cabuloso ainda. Esse é um daqueles livros que a cada parágrafo sentimos como que um tapa na cara e um soco no estômago. É um livro para se ter na cabeceira e ler e reler dezenas de vezes, talvez centenas. Se eu fosse fazer um resumo das frases que mais me impactaram, praticamente transcreveria o livro para este post. É o tipo de livro para se ler com o Twitter aberto.

Logo no capítulo 2 o leitor é esbofeteado com o seguinte trecho:

“Deus¹ permite que a decepção aconteça no limiar de todo empreendimento humano. Ela acontece quando o menino que ficava encantado no maternal com as histórias da Odisséia²  começa a estudar seriamente a língua grega. Acontece quando recém-casados dão início à missão de aprender a viver juntos. Em todas as instâncias da vida, essa decepção marca a transição da aspiração sonhadora para a ação laboriosa”.

Não sei de vocês, mas isso tem sido o lema da minha vida.

É claro que desde criança sofremos várias decepções, pequeninas e gigantescas. Isso é normal. Ninguém consegue tudo que quer, do jeito que quer e fica feliz exatamente como imaginou. Quanto maior a expectativa, maior o tombo.

No entanto, nos últimos anos, eu venho colecionando algumas decepções épicas que, de tão reincidentes, me fizeram parar para perguntar: Será que Deus está querendo me ensinar algo com tudo isso?

Resolvi parar de me lamentar e embolei a frustração como se embola uma folha de papel em que estava escrito um poema medíocre. Joguei na lata do lixo (só que não, na verdade guardei na gaveta) e coloquei uma folha em branco na máquina de escrever. Comecei a ler histórias e poemas melhores que os meus. Histórias como a de Jó, de Salomão e as escritas por C. S. Lewis. Essas histórias e poemas me fizeram perceber que eu me tinha em alta conta e me julgava um suprassumo de ser humano.

Eu queria ser a amiga querida, a neta mais amada, a aluna elogiada, a cristã correta, a professora admirada, a escritora super lida, enfim, queria me destacar. Entendam, eu não sou do tipo de mulher que quer ser melhor do que todo mundo e está disposta a subir na cabeça das pessoas para chegar ao topo. Até porque sou preguiçosa demais para isso. O fato é que sempre que alguém se destacava de alguma maneira, minha luzinha vermelha da autoestima se acendia, a gratidão por tudo o que Deus já me deu desaparecia e no lugar surgia a frustração. Sempre que eu me desapontava com algo ou alguém, ficava com um nó na cabeça, um gosto amargo na boca e um peso insuportável no coração.

Caramba, isso é horrível. Só quem sente ou já se sentiu assim sabe do que estou falando. Quando os pensamentos e emoções negativos te controlam a ponto de você se sentir um lixo. Aí você pensa: “Eu não faço mal a ninguém, sou uma pessoa boazinha, por que isso acontece só comigo? Coitadinha de mim…” Reparem no destaque para a palavra só. O ego fica tão inflado que chegamos a pensar que somos os únicos a ter decepções. Meu Deus, obrigada por sua paciência e misericórdia. Se fosse outro pai já tinha me dado um puxão de orelha bem violento para eu ficar esperta. Mas Deus não é assim, Ele é bondoso, é justo, é severo quando preciso, mas nunca sem a presença do amor.

E então, nas minhas buscas por respostas e por práticas que me ajudassem a lidar com as decepções, encontro esse trecho-tapa-na-cara do C. S. Lewis. E por incrível que pareça,  falado através da boca de um diabo (que é o narrador da história): “Deus permite que a decepção aconteça no limiar de todo empreendimento humano. (…) Em todas as instâncias da vida, essa decepção marca a transição da aspiração sonhadora para a ação laboriosa”.

Caraca! Putzgrila! Caramba! Puxa vida! Foram essas palavras que me vieram à mente e a vontade: “caramba, preciso twittar isso!” Sim, Ana, twitte isso. Mas não só pelo celular. Twitte isso no seu coração também. Lembre-se disso quando seu trabalho te decepcionar, quando um sonho realizado não for aquela Brastemp que você imaginava, quando seu esposo te deixar louca de raiva, quando você não puder viajar para aquele lugar maravilhoso, quando receber uma crítica, quando sofrer perdas, quando um amigo se afastar sem explicação alguma, quando você descobrir que não é o suprassumo dos seres humanos.

É gente, eu precisava desse tapa na cara. Deus realmente estava querendo me ensinar algo.

“A decepção marca a transição da aspiração sonhadora para a ação laboriosa”.

É bom sonhar? Sim. As coisas caem do céu? Às vezes. Todavia, em todas as outras vezes a conquista só vem com muito trabalho e suor. Obviamente não há nada que eu tenho que não me foi dado por Deus. Reconheço isso. A honra e a glória são todas Dele. O que quero dizer é que se eu quero ser a amiga querida, preciso investir em minhas amizades, gastar tempo, ajudar quando precisam, estar mais disposta a ouvir do que falar, ser presente, amá-los como eles são. Se quero ser a neta mais amada, ok, não a mais amada pois isso seria injusto numa família cheia de netos e bisnetos, mas se eu quero ser a sobrinha, a neta, a prima, a filha amada, preciso ser amável e isso implica respeitar minha família, preocupar com cada um, orar por eles, escrever cartas e e-mails, ligar de vez em quanto, manter contato. Se eu quero ser a aluna elogiada, preciso estudar, não ter preguiça de me aperfeiçoar no que me propus a aprender, fazer tudo com excelência; se quero ser uma cristã correta devo amar a Deus, obedecê-Lo, preocupar-me mais com a vontade Dele do que com a minha; se quero ser uma professora admirada, devo respeitar meus alunos, ter boa oratória, dominar o conteúdo lecionado, me atualizar sempre; se quero ser uma escritora lida, preciso não só escrever, mas aprender a divulgar e promover o meu trabalho.

Mas há aqui algo muuuuuito importante que eu aprendi, talvez o mais importante de tudo: Pode bem ser que, mesmo se eu fizer tudo o que foi descrito no parágrafo acima, não alcance os objetivos almejados. É bem provável que, ao contrário, eu me decepcione no fim das contas e não seja tão admirada como gostaria… nem amada, nem correta, nem elogiada e muito menos me destaque. É aí que ocorre o desapontamento, a desilusão. E é exatamente aí que ocorre a transição entre a “aspiração sonhadora para a ação laboriosa”, entre a vida ideal romantizada e a vida real cheia de espinhos. Quando isso acontece, eu amadureço. Quando isso acontece, reconheço que sem Deus, “tudo é vaidade e correr atrás do vento”.

A cada decepção, fui caindo na real de que toda escolha tem consequências, de que nem sempre é possível desistir e de que o mundo não gira ao meu redor. Descobri em mim pecados e defeitos dos quais preciso me arrepender e pedir perdão diariamente. Descobri que toda bondade e justiça que há em mim, na verdade não emana de mim, mas vem de Cristo. Descobri que tudo é pela Graça. Não é pelo que eu faço, mas pelo que Cristo fez. Aprendi que eu preciso diminuir para que Ele cresça em meu coração e em minha vida. Meu ego me afasta de Deus. E ego e decepções andam de braços dados.

Aprendi a lidar totalmente com as decepções? Claro que não. Ainda estou engatinhando nesse processo. Mas, ao invés de ficar amargurada e revoltada, entendi que a decepção é uma coisa boa, pois me ajuda a preocupar mais com os planos de Deus do que com os meus, e me ensina a ser mais humilde e mais dependente do Senhor.

“O mundo não é cor de rosa e o Evangelho não é de pelúcia”, ouvi isso no curso de Teologia. As decepções nos ajudam a descobrir isso. E nos ajudam a entender que quando falamos da Cruz de Cristo, o assunto é sério. Muito sério. Sério e profundo. E, mais ainda, nos fazem compreender o tamanho do amor que Deus tem por nós. Deus é amor. Deus é o caminho, a verdade e o amor absolutos. Quando conhecemos essa Verdade, experimentamos desse Amor e trilhamos esse Caminho, as decepções diminuem e em seu lugar passamos a ser surpreendidos. Surpreendidos pela esperança, pela fé e pelo amor.

_________________________

¹ Deus é tratado no livro como “Inimigo”, pois o narrador é um diabo.

² Ri alto nessa parte, pois no Brasil isso passa longe. Falar de Homero para estudantes brasileiros? Nem na pós-graduação fui apresentada a essa obra. No Brasil, ou você é autodidata, ou corre sérios riscos de se tornar um analfabeto funcional. A segunda opção tem vencido nessa geração.

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