Infinitos Porquês

Na história de Hanna Baker são apresentados 13 motivos para ela ter abdicado da vida.

Na verdade, se conversarmos com nossos amigos, quase todo mundo já teve 13 motivos ou mais para desistir. Contudo, para cada vez que pensamos que viver é uma porcaria, existem infinitos motivos para respirarmos fundo e seguirmos em frente. Olhando para o meu passado foi mais ou menos assim:

1) Não me lembro dos meus pais felizes, em uma união de respeito e amor. O casamento deles se deteriorava dia após dia.

No entanto, tenho certeza absoluta de que tanto meu pai quanto minha mãe sempre amaram muito a mim e a meu irmão. Minha mãe vivia a vida por nós. Eu e meu pai éramos amigos, ele era um bom cozinheiro, me lembro até hoje das caldeiradas de peixe que ele fazia. 

2) Meu pai era alcoólatra e havia sempre muitas brigas. Já perdi a conta de quantas vezes minha mãe passava vergonha por causa do comportamento  inconsequente do meu pai. Discussões na frente das pessoas, batidas de carro, meu pai caído na rua ou na cadeira de um bar. Quando ele bebia, parecia virar outra pessoa.

Mas quando ele não bebia, embora apresentasse um comportamento que hoje compreendo que era depressivo, ele era um homem sonhador, contava histórias, demonstrava afeto. Como eu disse, eu e meu pai éramos amigos. Aprendi com minha mãe a ser batalhadora, a trabalhar duro, ajudar as pessoas, aprendi com ela sobre generosidade e fé. Mesmo com tudo o que ela passou na vida, nunca esmoreceu. Sempre pensava mais nos que amava do que nela mesma. 

3) Quando eu tinha 13 anos tinha um menino da turma de perto da escola que eu achava bonitinho. Eu gostava mesmo dele. Chegamos a nos beijar e eu fiquei tão feliz! Mas depois, meninas que eu confiava e considerava amigas disseram a ele que eu falei mal dele e o menino nunca mais quis saber de mim. Fiquei muito arrasada.

Quem nunca teve o coração partido? Precisamos aprender a superar isso não é mesmo? Quem nunca sofreu uma traição, uma rejeição? É bom para aprendermos a não fazer aos outros o mal que não queremos para nós. E foi bom também para eu aprender a não confiar em todo mundo. 

4) Meus pais acabaram se divorciando.

Mesmo assim a minha relação com meus pais manteve o amor e o respeito. Na época, eu era adolescente e comecei a me envolver com drogas e mentiras, por isso me afastei da família emocionalmente. Eu preferia estar com meus amigos a estar com a família, porque me sentia mais livre. Mas eu sempre soube que meus pais me amavam muito e nunca me senti rejeitada ou negligenciada. Pelo contrário, o cuidado deles era tão grande que eu precisava mentir para conseguir fazer as coisas erradas no escondido. 

5) Minha mãe descobriu que eu usava drogas e ficou muito decepcionada. Me proibiu de sair de casa e minha vida ficou um tormento.

Entretanto, eu sabia que estava colhendo o que havia plantado com minhas mentiras e pelos entorpecentes. Minha mãe estava fazendo aquilo para me proteger e não para me prejudicar.

6) Terminei mal um relacionamento e espalharam boatos maldosos a meu respeito, queimando meu filme e me difamando. Fiquei com muita vergonha, imaginando o que é que estariam falando de mim pelas costas. Tive raiva por ter confiado nas pessoas e descoberto que a falsidade era algo bem real e doloroso.

Foi nessa época que eu me aproximei mais de Deus. Passei a orar com maior frequência e a buscar a verdade sobre Deus, quem Ele era e como eu poderia chegar até Ele. Li alguns livros do Paulo Coelho e me interessei pelo tema wicca. Li um livro Hare Krishna e recitei alguns mantras, frequentei uma fraternidade espírita kardecista, fui a quaresma inteira à missa na igreja católica… Até que um amigo de escola me convidou para ir a um estudo bíblico da linha cristã protestante. Logo em seguida conheci o André, que também falou de Cristo para mim. Daí em diante eu entendi quem é Jesus Cristo e o amor que Ele têm por nós. Foi na fé cristã que encontrei o caminho que eu estava buscando e tudo passou a fazer mais sentido. 

7) Comecei a namorar o André em 2001. Eu tinha 16 anos e ele 32. Além disso, ele é tetraplégico e não tinha uma profissão nem um diploma. Eu já estava na faculdade quando resolvemos nos casar, mas quase ninguém ao nosso redor aceitou. Diziam que eu era boa demais para ele.

Isso nos ajudou a amadurecer nosso amor, a não nos casarmos intempestivamente. Oramos por muito tempo para que fosse feita a vontade de Deus e não a nossa, pedindo a Deus que abençoasse nosso casamento, ou que então abençoasse o término de nosso relacionamento. Eu tive tempo de me formar e pudemos juntar alguma grana.

8) Depois de alguns anos frequentando a igreja cristã protestante, eu tinha esperança de que meu pai iria parar de beber e se converter, tornando-se um homem melhor. O que aconteceu foi que meu pai morreu em 2007.

Realmente fiquei decepcionada, mas alguns dias antes da morte dele, um casal de pastores evangélicos tinham visitado o meu pai e eu vi com meus próprios olhos e ouvi com meus próprios ouvidos meu pai aceitar Jesus como Senhor e Salvador. Isso serviu para me consolar e acreditar que ele foi para o céu. 

9) Enfim, minha família aceitou o casamento, minha mãe ficou do meu lado em minha decisão e eu e o André começamos a organizar tudo. Reformamos a casa, contratamos os serviços de foto, filmagem, decoração da igreja, fizemos o curso de noivos, escolhi as músicas, ganhei o vestido e o véu, ganhei a banda que iria tocar, ganhei os bombons, muita gente nos deu presentes e dinheiro. Eu estava muito feliz. Cheguei a dar testemunho na igreja sobre a importância de se ter um namoro que obedeça aos mandamentos bíblicos e como Deus honra e abençoa aqueles que obedecem. Foi então que, cinco dias antes do meu casamento na igreja e três dias antes do casamento no cartório, meu irmão caiu debaixo da roda de um ônibus e morreu. O momento que era para ser de festa, se tornou em luto. Ele entraria comigo na igreja, já tínhamos comprado seu terno. Era um menino lindo de 17 anos, meu amigo do peito, um rapaz cheio de sonhos, preocupado com as provas de recuperação, fazendo aulas de reforço de matemática, amado por todos, admirado pelas garotas, cheio de amigos. Eduardo era um menino fantástico. Nosso querido e amado Dudu. Não tinha mais graça, por isso cancelei o casamento na igreja e só me casei no cartório.

Dias antes dessa tragédia acontecer, eu estava conversando com meu irmão no quarto e perguntei se ele sabia quem era Jesus. Conversamos sobre isso e ele fez uma oração aceitando Jesus como Senhor e Salvador. Esse ainda é um Porquê que me afeta até hoje, não sei se superei, nem sei se quero superar. Não compreendo o porquê dessa morte e nem consigo tirar nada de bom disso. Mas eu aprendi que Deus não diz apenas Sim. Deus também diz Não. Já se passaram quase 9 anos e eu ainda não consigo acreditar. Fecho os olhos e lembro do rostinho dele. E quando mergulho nessa dor, sinto como se eu estivesse me afogando. Aquela sensação de que se está num mar revolto e não consegue respirar. A saudade é algo que nunca se dissipa. E eu sinto muita, muita saudade. Escrevo essas linhas agora com os olhos marejados, porque falar do Dudu não é nada fácil. Vivo meus dias como se ele nunca tivesse existido. E quando me lembro dele e me lembro de que nunca mais poderei abraçá-lo… Meus Deus! É impossível… Talvez esse seja o meu maior porquê. Mas nesses 9 anos aprendi a amar a Deus acima de todas as coisas, debrucei-me sobre o livro de Jó e finalmente o entendi. Talvez eu conhecia Deus só de ouvir falar. Hoje meus olhos querem O ver. A morte realmente é nossa maior inimiga, mas Jesus a venceu e nos prometeu a vida eterna. Eu aprendi o que é fé, esperança e amor.

10) Me formei em Geografia e fiz mestrado também. Tinha expectativas de conseguir um bom emprego como professora de ensino superior e de fato trabalhei com isso. O salário era bom e eu amava lecionar. Em meu mestrado viajei para Roraima, cruzei a fronteira com a Venezuela, com a Guiana, investi grana, escrevi uma dissertação de 250 páginas. Todavia, nunca consegui o emprego dos sonhos. Era como se eu tivesse sempre subindo degraus, avançando um passo, recuando dois. Via minhas primas, minhas amigas conseguindo sucesso em suas carreiras e eu ainda estava construindo algo, tentando chegar a algum lugar.

Mesmo não conseguido o emprego dos sonhos, aprendi muito. Viajei, conheci lugares distantes, outras culturas, povos indígenas, fiz amigos do Brasil e da Venezuela, me tornei uma pesquisadora e também mestre em Geografia. Algumas amizades que tenho até hoje foram feitas nessa época. 

11) Em uma das faculdades que dei aula, uma turma de alunos fez uma avaliação negativa sobre mim, mentindo, fazendo falsas acusações. Eu tinha provas para me defender de tudo. Mas a coordenação avaliou que não seria necessário. Ficou por isso mesmo. Foi uma grande decepção.

No entanto, tive muitos alunos maravilhosos, orientei monografias que ficaram excelentes, tenho consciência de que fiz um ótimo trabalho. Fiz amigos, conheci histórias de vida, ganhei experiência, melhorei meu currículo, escrevi artigos, enfim, o saldo foi positivo. 

12) Sempre confiei em mim mesma, me achava uma boa amiga, uma boa pessoa, uma boa cristã. Nos últimos anos, meus defeitos apareceram tão nitidamente que admito, não é fácil me amar. Pessoas se afastaram de mim, provavelmente magoei amigos e familiares, entristeci o Espírito Santo inúmeras vezes e me dei conta de que não sou aquele suprassumo de ser humano que eu pensava. Decepcionei-me tanto comigo mesma que chego às vezes a questionar minha fé. Como pode alguém amar a Deus e ser tão podre?


Quero acreditar que estou passando por uma fase semelhante ao ouro, que precisa ser submetido ao fogo para que as impurezas subam à tona e fiquem visíveis e mais fáceis de serem removidas. Só assim conseguimos o ouro puro. Essa fase também tem servido para eu entender que não sou autossuficiente, que preciso de Deus e de Sua misericórdia e que não posso salvar a mim mesma. Só alguém muito melhor do que eu pode fazer isso. Cristo é essa pessoa. 

13) Dedico esse porquê àquelas coisas que não quero revelar aqui: traições, falsidades, decepções, frustrações, medos, ansiedades, constrangimentos, perdas, derrotas, orgulho ferido, invejas, erros, pecados, sonhos não realizados, arrependimentos, fardos, tristezas… tudo aquilo que não quero dizer para não me expor mais do que este texto já expõe. Talvez Hanna Baker tivesse outros porquês que não quis revelar. Talvez você que esteja lendo este texto tem porquês que são impronunciáveis. Todo mundo tem um lado sombrio e quase todo mundo já sofreu com o lado sombrio de alguém.

Viu só? Viver não é fácil. Viver bem é ainda mais difícil. Por isso há aquele ditado que fala em matar um leão a cada dia. O apóstolo Paulo falava que vamos prosseguindo “de glória em glória”, de vitória em vitória em meio às derrotas, dia após dia. Um dia de cada vez. Há dias de alegria e dias de tristeza. Dias em que perdemos e dias em que ganhamos. Dias em que vencemos e outros em que somos derrotados. Termino este longo texto (pois eu poderia falar aqui por mais infinitas linhas), com a Oração da Serenidade, que sei que é usada por muitos grupos de apoio:

Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras.

Um grande abraço a você querido leitor. Vemos por aí circular nas redes sociais a frase: “Não seja o porquê de alguém”. Está certo, não devemos ser mesmo. Mas infelizmente somos seres humanos e isso significa termos falhas, defeitos graves. É inevitável que magoemos as pessoas e é inevitável que sejamos magoados por elas. Como disse uma amiga minha, “ninguém sai ileso de ninguém”. Todo mundo tem 13 porquês para desistir. Claro, existem porquês mais graves que outros. Mesmo assim, a dor não se mede pelo termômetro do outro, não é mesmo?! Enquanto há gente passando fome, eu tenho crises existenciais. Quem sofre mais? Qual dor é maior? Não é uma competição. Não estamos disputando nada. No fim, todos vamos para o mesmo lugar (pelo menos até um certo ponto) e o legal seria que pudéssemos ajudar uns aos outros. O mandamento é simples: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Amar a Deus, amar a si mesmo, amar o próximo… Ah, como é simples ser feliz! Mas as coisas simples são também as mais profundas… O simples nem sempre é fácil.

Grande beijo,

Ana Faria.

PS: Desculpe os erros ortográficos, mas decidi não reler este texto para não desistir de publicá-lo. Detesto autobiografias. Prefiro escrever ficções, assim posso sempre fazer finais felizes.

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