Viver é Adaptar-se – Parte 1

Já falei em um post anterior – na verdade não é pensamento meu, mas que tirei dos meus estudos sobre Filosofia – “que existem circunstâncias sociais, genéticas, emocionais, intelectuais e até cósmicas sobre as quais não exercemos nenhum controle. O desafio é aprender a viver bem a partir do que somos e do que temos, aceitando aquilo que não podemos mudar e tendo coragem de mudar aquilo que podemos”. Pois bem, não sei se todo mundo sabe que sou casada com um homem que é tetraplégico. O conheci já nesta condição há 16 anos, quando eu, ainda menina, me apaixonei pelo meu melhor amigo. Sim, éramos amigos a princípio, mas o relacionamento foi se tornando cada vez mais estreito, até que nos beijamos pela primeira vez em 13 de dezembro de 2001. 


De lá para cá vieram as etapas do namoro, noivado e casamento. Muita coisa aconteceu na minha vida e na dele nesses 16 anos e, pela Graça e Amor de Deus, nosso amor tem vencido e se renovado. Sim, por causa do Amor de Deus, porque não há amor nem afeição que possam existir desvinculados do amor de Deus. Sem o amor de Deus tudo se torna tormento, escravidão e vazio. 

Mas este texto não é exatamente para falar de teologia, nem especificamente dos meus amores e das minhas dores. Este texto é pra falar de superação. 


Ainda namorando o André, ele cismou certa vez de fazer autoescola para conseguir dirigir um carro adaptado. No fundo, confesso que pensei que ele não seria capaz. Fiquei com medo até, pelas limitações dele oferecerem riscos no caso dele dirigir um automóvel. Mesmo assim, concordei com a ideia e lá fomos nós fazer aula na única autoescola que, na época, tinha um veículo adaptado e automático em Belo Horizonte. Sentei-me no banco de trás com a sensação de medo. Medo por ele ficar frustrado se tudo desse errado, e medo por estar no carro com alguém dirigindo perigosamente. Hahaha, imaginava-o tentando fazer uma curva e esborrachando o carro no muro. No entanto, para a minha surpresa, já na primeira aula ele dirigiu maravilhosamente bem e, antes mesmo de completar o pacote de 10 aulas comprado, o instrutor já marcou o exame dele. O André tirou a carteira adaptada de primeira (ele já era habilitado, porém, quando se fica deficiente, é preciso passar por todo o processo de novo e fazer o exame com as adaptações necessárias). Eu e ele ficamos muito felizes. 


Esse é só um exemplo de todas as coisas que meu marido conseguiu fazer depois que o conheci. Ele saiu de uma condição de acamado quase 24 horas por dia, para uma vida ativa, semi-independente e dinâmica. Foram necessários muitas adaptações como as do carro, da casa, do estilo de vida e rotina e, principalmente, da mentalidade. Talvez o mais difícil de se adaptar a uma situação nova e/ou limitada seja a mente. O medo muitas vezes paralisa e nos impede de tentar algo novo, de sair da zona de conforto, de perder o controle total da situação, de correr riscos.

A mais recente mudança, que está me fazendo dar pulos de alegria, é que temos feito mais coisas juntos, dentre elas, viajar. Há 9 anos sempre viajávamos para a mesma cidade nas férias, o mesmo hotel, o mesmo quarto. No início era legal, pois é um lugar bem bonito, mas depois foi me cansando. Entendo que, para meu marido, ir em um lugar que já se conhece e já se sabe que tem estrutura para cadeirante, traz segurança e conforto. Mas, definitivamente, para mim, isso se tornou um saco. Diferente dele, gosto de novidades, de ir a lugares diferentes, conhecer outras paisagens, culturas, idiomas, comidas, etc… Viver novas experiências. É em situações assim que o amor precisa agir. Se eu amo meu marido, preciso compreender que não é todo lugar que ele pode ir comigo, nem tudo que eu quero é o que podemos fazer. Por outro lado, o André precisa entender que só porque ele não pode, não quer dizer que eu não posso; só porque ele não quer, não quer dizer que eu não quero. Cada um precisa ceder um pouquinho.

Graças a Deus, ele nunca foi o tipo de homem que proíbe a esposa de fazer as coisas. Pelo contrário, sempre me apoiou quando viajava em razão do mestrado, quando viajo para as bienais e feiras de livros, quando vou visitar algum parente que mora longe. Ele mesmo já viajou com os amigos pra ver jogo do Galo em outro estado. Quanto a isso, somos bem tranquilos. A questão toda é que eu queria fazer mais coisas COM ELE. Ele entendeu isso e passamos a ir mais ao cinema, a restaurantes mais topzinhos, a fazer viagens diferentes. E foi aí que o mais legal aconteceu. Se no início o André topou sair da zona de conforto e vencer os medos para me agradar, logo em seguida ele sentiu na pele o quanto isso era bom. Ele mesmo começou a ter vontade de fazer as coisas, sem precisar de eu ficar insistindo. E isso fez muito bem a ele, a mim e a nós. Fez bem ao nosso amor.

Sim, viver é adaptar-se. Adaptar-se é sair da zona de conforto e permitir o novo. É vencer os medos, aceitar os desafios, aprender a conviver com o que não se pode mudar e ter coragem para mudar o que é possível.

É isso o que eu e o meu marido temos feito.

Que Deus dê a você sabedoria e força para vencer.

Descobri uma coisa com o Pastor Guilherme de Carvalho. O contrário do amor não é o ódio, nem a indiferença. O contrário do amor é o medo, porque o amor lança fora todo o medo. E Deus, o que é? Deus é amor.

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