Madame Bovary e o problema do descontentamento

Nunca tinha sentido uma ressaca literária tão profunda quanto após a leitura de Madame Bovary, de Flaubert.

É um clássico e, como todo clássico que eu já li, demorei meses para terminar. A linguagem é magnífica, mas a história é densa e nem um pouco divertida. Não é uma leitura para entretenimento. Quando se lê histórias como a de Madame Bovary, o que se ganha é um conhecimento maior sobre o sofrimento humano.

Eu odiei Ema Bovary em muitos momentos. Odiei-a por causa de suas atitudes e, principalmente, porque me reconheci na protagonista. Identifiquei-me profundamente com o descontentamento no qual ela agoniza. Cada escolha de Ema tinha como objetivo alcançar a felicidade e tornar a vida menos enfadonha. Mas o novo também se torna velho e Ema voltava sempre ao mesmo estado de tristeza, ou talvez a um estado cada vez pior. As desilusões e a monotonia corroeram sua alma a ponto de levá-la odiar tudo, inclusive a si própria. A dor do existir fazia-a voltar-se apenas para si mesma, num narcisismo tal que nem a própria filha era digna de seu afeto sincero.

Odiei Ema Bovary porque ela era infeliz apesar de ser bonita e inteligente, ter um marido bondoso e fiel, uma filha saudável e doce, amigos, casa, uma vida confortável e um pai amoroso. Como alguém com tudo isso pode não ficar satisfveito e grato?

Pois é… Que atire a primeira pedra quem nunca reclamou de barriga cheia.

Se você já sentiu ao menos um quarto do vazio que Madame Bovary sentia, sabe que nem todo dinheiro do mundo, nem as maiores paixões, nem os melhores divertimentos, podem preenchê-lo. E o final de Ema é o mais terrível possível. O dela e o da família.

Pobre Ema! Queria poder salvá-la, ser-lhe amiga, ajudá-la a encontrar uma saída. Naquele tempo, provavelmente, não se tinha diagnósticos nem tratementos adequados para a depressão e suas variações. Mas, hoje isso existe e, ainda assim, muitos de nós vivem como Ema, vendo os dias passarem como reprises infindáveis, sentindo nos ombros o fardo pesado de sermos felizes e a responsabilidade de não tornar a vida de quem amamos um inferno.

Ao ler a última página fiquei pensando… é muito fácil julgar Ema Bovary como mulher leviana e ingrata. É muito fácil apedrejá-la. O que eu quero realmente saber é como Ema poderia ter sido salva.

Claro, sabemos que a Salvação pode vir apenas de Cristo. Ema conhecia a religião, mas não conhecia o Cristo. Pelo menos não como o Novo Testamento O revela. Todavia, dizer que Ema pereceu por não conhecer a Cristo, embora seja verdade, é uma resposta bem simplificada e que leva à outra pergunta mais complexa: em que consiste conhecê-Lo?

Desde o Gênesis, Deus vem se revelando como Criador, Senhor, Grande Eu Sou, e como Pai, através de seu Filho Jesus. Deus é trino, é Pai, Filho e Espírito Santo.

Deus também se revela na criação, nas Escrituras, em nosso coração. Ainda assim, é possível que não O conheçamos de fato.

Um grande filósofo disse certa vez que “Deus fez o mundo ambíguo o suficiente para crermos Nele se estivermos dispostos”. O problema está no ollhar. Muitas vezes preferimos enxergar aquilo que não somos, que não temos, que não sabemos. Com toda a luz existente, ainda assim preferimos olhar para a escuridão. Com tudo o que nos foi revelado, preferimos nos exaurir desvendando os mistérios. Com toda a beleza diante de nós, preferimos olhar aquilo que está por trás de tudo até que todas as coisas se tornem transparentes (C. S. Lewis). Com toda a dádiva disponível, preferimos enxergar a privação e os limites (Guilherme de Carvalho).

Creio que esse era o caso de Ema. Ela sonhava com uma vida agitada, emocionante e prazerosa, mas, mesmo vivenciando momentos assim, nunca eram o bastante. Nada conseguia preencher o coração de Ema. E esse vazio cresceu gradativamente até que a engoliu.

Eu não sou como Ema, mas admito que me identifiquei com ela em muitos pensamentos. Poderia fazer aqui dezenas de citações, frases de Flaubert que atingiram meu peito feito lança. Me pergunto como um homem conseguiu escrever uma história que caracterizasse tão bem a angústia de uma mulher decepcionada com a vida feito Ema Bovary.

O problema dos clássicos, pelo menos os que já li, é que o mal e a dor são bem retratados, mas nunca há uma redenção. Não gosto disso. E é exatamente o contrário que tento fazer nas histórias que escrevo. Ainda que anos luz do talento de Flaubert, escrevo sobre a dor, sobre o amor, sobre o medo, e também sobre esperança e fé. Os meus protagonistas passam por um processo de amadurecimento até alcançarem a redenção.

Aprendi com Ema Bovary. A história dela me inspirou e me emocionou. E o final devastou meu coração. O fim de Ema retratou o que acontece com quem não tem fé, amor e esperança. Essas três virtudes sempre estão presentes nas histórias que publico, porque quero lembrar aos meus leitores que o bem vence no final. Não só na Literatura, como também na vida real.

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